Crítica | IT: Bem-Vindos a Derry
Bem-vindos a Derry retorna ao universo de IT apostando menos no susto fácil e mais no desconforto constante, explorando a cidade como personagem e o m

Não é exatamente um convite. Nunca foi. IT: Bem-Vindos a Derry chega com aquele sorriso torto, meio educado, meio ameaçador — e deixa claro logo de cara que a cidade continua sendo o verdadeiro monstro da história. A nova série ambientada no universo de IT não tenta reinventar o terror, mas prefere cavar fundo. Bem fundo. Onde o medo não grita. Ele observa.
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A proposta aqui é diferente dos filmes. Menos espetáculo, menos corrida. Mais espera. Mais silêncio. A narrativa avança em ritmo contido, quase desconfortável, como se o horror estivesse sempre prestes a acontecer — e às vezes acontece mesmo, mas do jeito errado, fora do tempo “ideal” do susto clássico. Isso pode frustrar quem espera palhaço, sangue e gritaria o tempo todo. Mas funciona para quem aceita a ideia de Derry como um organismo vivo, repetindo ciclos, mastigando gente.
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O grande acerto da série está em tratar o medo como algo herdado. Ele passa de geração em geração, muda de forma, mas nunca vai embora. Racismo, violência doméstica, intolerância, culpa coletiva — tudo isso aparece não como subtexto elegante, mas como parte do clima pesado que contamina a cidade. Pennywise é importante, claro, mas quase secundário. O verdadeiro terror é o que os moradores aceitam, silenciam, normalizam.
Bem-vindos a Derry é sóbria. Nada de exageros estilizados o tempo todo. A fotografia aposta em tons opacos, cenários fechados, ruas que parecem sempre vazias demais. A cidade parece suspensa no tempo. E isso incomoda. Do jeito certo. A trilha sonora aparece pouco, entra e sai, sem avisar — reforçando essa sensação de que algo está errado, mas ninguém sabe exatamente o quê.Nem tudo funciona o tempo todo. Alguns episódios se arrastam além do necessário, certos personagens demoram a ganhar densidade, e há momentos em que a série parece confiar demais no clima e de menos na progressão dramática. Ainda assim, o conjunto se sustenta. Porque Derry, mais uma vez, é convincente. E cruel. E familiar demais.
IT: Bem-Vindos a Derry não quer ser lembrada como uma série de terror “impactante”. Ela prefere ser incômoda. Persistente. Daquelas que ficam na cabeça depois do episódio acabar. Como uma cidade que você jura que nunca visitaria — mas que, de algum jeito, já conhece.
E talvez esse seja o maior horror de todos.