Entre o Brasil e o agora: Gabriel Leal organiza memórias e lança o EP "Que isso esse?"
Gabriel Leal, ex-Scracho, estreia o EP Que isso esse?, um trabalho solo que cruza brasilidade, distância e experiência em seis faixas sem rótulos.

Às vezes um disco não nasce de um plano. Nasce de acúmulo. De estrada, de silêncio, de mudança de país, de músicas guardadas no bolso. Que isso esse?, novo EP de Gabriel Leal, vem exatamente desse lugar. Um ponto de organização depois de anos vivendo a música por dentro — e também por fora.
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Conhecido como guitarrista e compositor da Scracho, Gabriel passou boa parte da vida circulando pela cena brasileira dos anos 2000. O fim da banda não significou pausa criativa. Pelo contrário. As canções continuaram surgindo, meio soltas, atravessadas por novas experiências, outras paisagens, outros tempos. O EP surge agora como essa convergência natural. Nada forçado. Nada nostálgico demais.
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Vivendo fora do Brasil, Gabriel constrói o disco a partir de uma brasilidade vista à distância. Não como saudade congelada, mas como vivência em movimento. O resultado é um trabalho que passeia por ritmos, climas e formatos da canção brasileira sem se prender a rótulos. Tem frevo, tem ijexá, tem pop torto, tem afeto direto. Tudo filtrado pelo jeito próprio de compor, sem obrigação de caber em cena nenhuma.
O EP reúne quatro singles já apresentados ao longo dos últimos meses — Seu Mundo, Versão Limitada, Polaroid e Ciranda. Músicas que funcionavam sozinhas, cada uma com sua história, mas que agora se encaixam como capítulos de um mesmo percurso emocional. Elas preparam o terreno para duas faixas inéditas que ampliam o sentido do trabalho e fecham esse primeiro arco.
Faixa foco do projeto, Iansã é um ijexá de espírito “gilbertiano”, que cruza espiritualidade e cotidiano com naturalidade rara. A canção soa como um pedido de proteção, quase uma conversa íntima com a fé na mudança, na travessia diária. Composição de Gabriel ao lado de Peu del Rey, a faixa tem produção assinada por Danilo Cutrim e Jean Charnaux, mantendo leveza sem perder profundidade.
Já Santa Teresa puxa o EP para outro gesto. Um frevo carnavalesco que celebra a rua, o encontro, o corpo em movimento. A cidade vira festa, suspensão, respiro. Um momento luminoso dentro do disco, que não quebra a unidade do conjunto, mas amplia seus horizontes.
Que isso esse? não se apresenta como conclusão. É mais um marco intermediário. A primeira parte de um projeto maior que deve se desdobrar em um álbum completo no início de 2026. Em vez de respostas prontas, o EP propõe escuta, percurso, continuidade. O sentido final ainda está em construção. E talvez seja exatamente aí que o disco encontra sua força.