Astra Vaga por Hugo Adelino / Divulgação


Há discos que querem chegar primeiro.
Unção Honrosa não é um deles.


O álbum de estreia do projeto português Astra Vaga soa como algo feito sem urgência, quase à revelia do tempo. Ele existe porque precisava existir. Não para competir, não para agradar algoritmo, não para pedir atenção. E isso muda tudo.


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Assinado por Pedro Ledo, músico já conhecido na cena alternativa por sua passagem por The Miami Flu e Lululemon, o disco marca um ponto de ruptura. Aqui não há banda para dividir peso. Não há estética coletiva para se esconder. É um trabalho solo no sentido mais literal: emocional, criativo e estrutural.


Produzido pelo próprio Pedro e lançado pelo selo Saliva Diva, Unção Honrosa nasce em horários ingratos. Madrugadas depois do trabalho, estúdios improvisados, casas diferentes pela cidade do Porto. Esse contexto não é detalhe — ele atravessa o som inteiro. Tudo carrega uma sensação de exaustão controlada, de pensamento que insiste quando o corpo já queria desligar.


Astra Vaga por @ohugoadelino / Divulgação


Musicalmente, o álbum cruza dream pop, pós-punk e pop alternativo de forma pouco óbvia. Nada é expansivo demais. Nada estoura. Sintetizadores aparecem e recuam, guitarras surgem como sombras, a bateria raramente pede protagonismo. A produção prefere textura a impacto. Às vezes até demais — há momentos em que as faixas se confundem entre si. Mas talvez essa seja a proposta: um disco que funciona mais como bloco do que como coleção de singles.



As letras seguem a mesma lógica. Depressão, saudade, desencanto amoroso, desejo de libertação. Temas conhecidos, sim, mas tratados sem dramatização excessiva. Pedro canta como quem não quer convencer ninguém. As frases vêm diretas, repetitivas, às vezes secas. O efeito não é confessional no sentido clássico — é mais próximo de um registro contínuo de pensamento. Um fluxo que não se organiza para o ouvinte. Você entra se quiser.


O clipe de Nada a Meu Favor ajuda a entender melhor esse universo. A estética de glitch, as referências a jogos japoneses dos anos 90, a baixa fidelidade assumida. Tudo aponta para a ideia de memória fragmentada, de passado que volta incompleto, com falhas. Não é nostalgia confortável. É deslocamento.



Há quem vá sentir falta de picos emocionais mais claros. Unção Honrosa raramente oferece um “momento”. Ele prefere o acúmulo. Prefere insistir num mesmo estado até que ele faça sentido. Para alguns, isso pode soar monótono. Para outros, profundamente coerente.


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O disco não se vende como grande estreia. Ele não tenta explicar Astra Vaga, nem justificar sua existência. Apenas se apresenta. E permanece ali, discreto, urbano, melancólico — esperando que alguém esteja disposto a escutar sem pressa.


Talvez esse seja seu maior mérito.


Unção Honrosa já está disponível em todas as plataformas digitais.