Faixa a Faixa: Carranca: Urias mergulha no que é nosso pra desenterrar um disco que não pede licença
Análise faixa a faixa do álbum Carranca (2025), de Urias, explorando significado, atmosfera e narrativa do disco mais simbólico da cantora.
Redação Alt Pop
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Olha, vou te falar... tem disco que você ouve e entende de primeira, e tem Carranca. Urias não é exatamente o que a gente esperava depois do HER MIND, sabe? É outra pegada. É mais denso, mais "chão". Sabe quando o artista resolve parar de olhar pro que tá rolando lá fora pra cavar o que tá debaixo do pé aqui mesmo? Pois é.
Ela traz o Criolo, traz o Don L, Marcinha do Corintho e bota uma galera pra pensar sobre o que é ser livre de verdade nessa bagunça de país. Não é um álbum feito pra tocar no repeat da academia, é um troço pra ouvir prestando atenção nos detalhes, nos samples, naquela brasilidade que chega a ser desconfortável de tão real. É soul, é R&B, é manifesto. É a Urias reafirmando que, se o mundo quer olhar, que olhe pras nossas cicatrizes e pra nossa herança também.
Abaixo, a gente separou o Faixa a Faixa pra você entender o peso de cada canção. Prepara o fone, porque o mergulho é fundo.
01
A Liberdade (Intro)
Não é só uma abertura — é já um aviso: aquilo que vamos ouvir não é liberdade suave. É uma reflexão: a liberdade que nos vendem é uma casa da qual muitos não têm chave. O texto narrado funciona muito mais como chave conceitual do que como canção.
02
Deus (ft. Criolo)
Primeiro “impacto real”. A junção com Criolo transforma essa faixa em manifesto. Usa elementos folclóricos ressignificados para falar de falsa fé, apagamento religioso e ancestralidade recuperada.
03
Quando a Fonte Secar
Aqui a sonoridade muda de clima: mais soul e R&B com brasilidade palpável. A música parece falar de força que persiste, mesmo quando tudo que sustentava começa a falhar. Elegante e carregada de mensagem.
04
Vénus Noir
Traz uma narrativa pessoal e histórica sobre visibilidade, peso social, fama e identidade negra. Mistura ritmo e palavra como um rap que te puxa pra dentro da história.
05
Vontade de Voar
Destaque absoluto do álbum — groove e energia para superar limites e circunstâncias. Tem perfume de liberdade aérea, como se a música fosse um desejo em movimento.
06
Oraçāo (Interlude I)
Interlúdio que não é só transição: é reflexão. A narrativa começa a se aprofundar ainda mais em símbolos e tensões afetivas e sociais. Respira fundo.
07
Etiópia
O símbolo de origem e reafirmação histórica. Combina groove oitentista com profundidade de tema: amor, identidade e pertencimento ancestral.
08
Águas de um Mar Azul
Canção inédita de Hyldon, recuperada e integrada ao projeto. Tem clima psicodélico e soul brasileiro clássico. Um eco de algo que estava adormecido.
09
Navegar
Sobre movimento, fluxo, constância e adaptação. Navegar não é só mover, é existir entre correntes que te desafiam o tempo todo.
10
Se Eu Fosse Você
Olhar íntimo para as relações e identidades. Menos manifesto político e mais espelho emocional com reflexões que reverberam no ouvinte.
11
Herança (ft. Giovanni Cidreira)
Expande a temática central de legado, raízes e memória afetiva. É reconhecer os fios históricos que nos trouxeram até aqui.
12
Paciência (ft. Don L)
Ritmo urbano, inteligente e crítico. A paciência aqui é um verbo de resistência e contestação, embalada por uma batida viva.
13
Oraçāo (Interlude II)
Momento final de respiro. Conecta o ouvinte ao arco conceitual maior do álbum antes do encerramento triunfal.
14
Voz do Brasil (ft. Major RD)
Fechamento impactante. Vira a "Voz do Brasil" oficial do avesso para criar uma crítica social e celebração de identidade única.
Carranca é menos sobre hits individuais e mais sobre trajetória — uma jornada sonora que olha para trás e chega no presente com potência e crítica social. Sempre com um pé na ancestralidade.