Foto: @clarablucena_

A música popular brasileira sempre encontrou maneiras curiosas de transformar dor em celebração, e Pedro Fraemam entende bem esse contraste. Em “TRAIRAGEM”, terceiro single do EP nem todo dia é CARNAVAL, o artista recifense mergulha em uma narrativa amarga sobre confiança quebrada e relações contaminadas por falsidade, mas escolhe fazer isso através de um som vibrante, quente e quase hipnótico.

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A faixa conta com participação de Alexandre Urêa, nome conhecido por trabalhos na Academia da Berlinda e Banda Eddie, e nasce justamente desse encontro entre latinidade, regionalidade e experimentação contemporânea. A construção sonora mistura elementos de Cumbia com Maracatu de forma orgânica, criando uma atmosfera que convida o corpo a dançar enquanto a letra revela feridas emocionais profundas.

Mas o mais interessante em “TRAIRAGEM” é justamente a maneira como Pedro Fraemam foge do óbvio. Apesar do título, a música não fala sobre um relacionamento amoroso destruído por infidelidade. O foco está em outro tipo de ruptura: aquela causada por pessoas próximas que conquistam confiança apenas para decepcionar depois. É uma composição sobre convivências tóxicas, máscaras sociais e a sensação amarga de perceber que certas alianças nunca foram tão verdadeiras quanto pareciam.

Capa do single TRAIRAGEM com participação de Urêa 


Musicalmente, a faixa pulsa com personalidade. Os riffs de guitarra surgem cheios de textura, enquanto as percussões criam um balanço contagiante que conversa diretamente com tradições pernambucanas sem soar preso a elas. Os metais ampliam essa sensação carnavalesca e teatral, reforçando a proposta tragicômica apresentada pelo artista.

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Pedro Fraemam também demonstra uma identidade artística cada vez mais sólida. Depois do EP um mergulho no meu melodrama, lançado em 2024, o cantor retorna agora com uma estética mais expansiva, colorida e coletiva. nem todo dia é CARNAVAL parece apontar justamente para essa dualidade entre excesso e vulnerabilidade, alegria e desgaste emocional.

Em tempos em que produções artificiais dominam discussões sobre música e criação, há algo especialmente valioso na maneira como Pedro aposta em arranjos orgânicos, trocas humanas e referências culturais vivas. “TRAIRAGEM” soa como uma música feita por pessoas reais, carregada de suor, ruído, contradição e verdade. E talvez seja exatamente isso que a torne tão fácil de sentir.