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Duas artistas que nunca tiveram medo de transformar o estranho em linguagem agora se encontram, pelo menos no campo da inspiração. Björk está desenvolvendo uma nova música inspirada em A Paixão Segundo G.H., clássico de Clarice Lispector publicado em 1964. A informação foi divulgada pela coluna de Ancelmo Gois, de O Globo, e repercutida por veículos como Papelpop, Rolling Stone Brasil e Terra.
Ainda não existem detalhes sobre o título da composição, produção, possíveis colaboradores ou uma data de lançamento. Também não há confirmação de que a faixa fará parte de um próximo álbum da cantora.
A escolha de A Paixão Segundo G.H. parece especialmente coerente com o universo artístico construído por Björk ao longo de sua carreira.
Publicado em 1964, o romance acompanha G.H., uma mulher que, ao entrar no quarto de sua antiga empregada, se depara com uma barata e acaba mergulhando em uma experiência de profunda transformação interior. O episódio aparentemente banal se transforma em uma investigação sobre identidade, existência, individualidade e os limites da própria consciência.
É justamente nessa fronteira entre o cotidiano e o desconcertante que a aproximação com Björk ganha força.
A artista islandesa construiu uma carreira marcada por experimentação, pela relação entre música e tecnologia e por uma maneira muito particular de transformar experiências íntimas em universos sonoros. Uma obra de Clarice, por sua vez, não oferece exatamente respostas fáceis. Ela provoca, desloca e deixa o leitor diante de perguntas que continuam depois da última página.
Talvez seja esse o ponto de encontro.
A relação de Björk com a literatura de Clarice não parece ser uma descoberta recente. Segundo informações repercutidas pela imprensa, a cantora já afirmou ter lido toda a obra da escritora brasileira e chegou a descrevê-la como “a melhor escritora do século 20”.
Agora, essa admiração deixa o campo da leitura e passa para a criação musical.
E há algo particularmente interessante nisso: em vez de escolher uma obra de narrativa convencional, Björk volta sua atenção para um dos livros mais subjetivos e difíceis de traduzir de Clarice. A Paixão Segundo G.H. é menos sobre acontecimentos externos e mais sobre aquilo que acontece dentro de uma pessoa quando suas certezas começam a desmoronar.
Transformar esse tipo de experiência em música é um desafio e tanto.
O estranho como ponto de partida
A barata de Clarice pode parecer, à primeira vista, uma escolha improvável para inspirar uma canção pop. Mas talvez seja justamente aí que a conexão faça sentido.
Em A Paixão Segundo G.H., o inseto deixa de ser apenas um elemento repulsivo e passa a funcionar como catalisador de uma experiência existencial. O encontro força a protagonista a confrontar aquilo que está fora de sua zona de conforto e, consequentemente, a própria imagem que construiu de si mesma.
Björk também tem uma longa história de transformar imagens incomuns, sentimentos difíceis de nomear e experiências fora do padrão em matéria-prima artística.
Por isso, mais do que imaginar uma adaptação literal do livro, é interessante pensar no que a cantora poderá fazer com o universo emocional de Clarice.
Uma música sobre G.H. não precisa necessariamente contar a história do romance. Pode partir de uma sensação, de uma imagem ou daquele desconforto que permanece depois que a personagem atravessa sua experiência.
Ainda sem data para ouvir
Por enquanto, resta a expectativa.
A informação disponível confirma que Björk está trabalhando na composição inspirada no livro, mas não revela quando ou como o público terá acesso ao resultado. Não foram anunciados título, colaboradores, produção ou data de lançamento.
Enquanto isso, o encontro entre as duas artistas já é interessante por si só. Clarice Lispector escreveu sobre aquilo que acontece quando o mundo conhecido deixa de fazer sentido. Björk passou décadas criando música justamente para explorar territórios que ainda não têm nome.
Se essa música chegar ao público, será curioso descobrir o que acontece quando essas duas formas de estranhamento finalmente se encontram.
E, considerando as artistas envolvidas, talvez seja melhor não esperar uma resposta simples.
