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| Foto / Divulgação |
Com sete faixas bilíngues, artista une piano, pop eletrônico e composição autoral em um trabalho intimista sobre existência, escolhas e transformação.
Há momentos em que falar sobre a vida também significa falar sobre a perda. É desse lugar, entre o peso do luto e a delicadeza de continuar, que Jully constrói Vida, seu novo EP. Lançado em 24 de julho, o trabalho reúne sete faixas autorais em português e inglês e transforma questões íntimas em uma obra que também olha para o mundo ao redor.
A faixa-título funciona como uma espécie de centro emocional do projeto. Nascida de uma reflexão sobre a existência após a morte do pai de seu filho, “Vida” encontra no piano, instrumento tocado pela própria artista, uma base para falar sobre tempo, escolhas, erros, acertos e sonhos. A canção conta ainda com André Gomes no baixo e Grenville Ries no violão.
“Se desfaz em pensamento / Pesa milhões de toneladas / Voa longe na madrugada”
São versos que traduzem a contradição presente no próprio conceito do EP: a vida pode pesar, mas também pode voar. Pode ser feita de perdas e, ao mesmo tempo, de possibilidades.
Um trabalho sobre continuar
Vida chega três anos depois de SOS, álbum em que Jully já direcionava seu olhar para questões relacionadas ao futuro do planeta. Agora, essa preocupação permanece, mas aparece ao lado de uma reflexão mais ampla sobre a existência e as escolhas individuais.
A artista aborda questões humanitárias, direitos dos animais e a relação entre o ser humano e a natureza, defendendo a ideia de que transformações coletivas também começam pelas decisões de cada pessoa. Em vez de transformar esses temas em discursos diretos, Jully prefere incorporá-los à própria linguagem das canções.
Essa abordagem aparece de maneira particularmente interessante em “Pink Armchair”, faixa em que a cantora convida o ouvinte a abandonar a zona de conforto e assumir o controle da própria história.
“Give me your hand / I’m not scarry / Get out of your pink armchair”
O convite é simples, mas conversa diretamente com a proposta do EP: olhar para dentro sem esquecer aquilo que acontece do lado de fora.
Entre o piano e a eletrônica
Musicalmente, Jully constrói Vida a partir de uma combinação que valoriza tanto a proximidade da canção autoral quanto as possibilidades do pop contemporâneo.
O piano ocupa posição central, acompanhado pela voz e por arranjos eletrônicos que ajudam a criar uma atmosfera contemplativa e cinematográfica. A produção musical é assinada por Jully e pelo sul-africano radicado no Brasil Grenville Ries, enquanto Carlos Trilha responde pela mixagem e masterização.
O resultado transita por territórios como Pop Alternativo, Art Pop, Indie Pop, Singer-Songwriter e Electronic Pop, sem abandonar o caráter íntimo da composição.
É uma sonoridade que parece pedir outro ritmo de escuta. Não necessariamente aquela audição apressada de quem procura apenas um refrão, mas uma experiência para acompanhar com mais calma.
Sete faixas, dois idiomas e uma mesma inquietação
O EP é bilíngue e reúne, além de “Vida”, as faixas “Impossible Things”, “Cheiro de Mar”, “Pink Armchair”, “Needy Boy”, “Shadow of Paradise” e “Guardiões da Terra”.
“Guardiões da Terra”, lançada anteriormente em dezembro de 2025, traz a participação de Thini-á Fulni-ô, liderança espiritual e xamã do povo Fulni-ô, que recita simultaneamente em Yaathe enquanto Jully canta. A faixa transforma a música em um clamor pela cura e pelo cuidado com a Terra.
A presença da faixa dentro de Vida ajuda a ampliar o significado do projeto. A existência, para Jully, não parece terminar no indivíduo. Ela também passa pela natureza, pelos animais e pelas relações que estabelecemos com o mundo.
A imagem também faz parte da música
Jully não limita sua expressão à composição. Cantora, compositora, fotógrafa, poetisa, produtora executiva e ativista pelos direitos humanos e animais, a artista também dirige a maioria de seus videoclipes, construindo uma identidade visual própria para seus trabalhos.
Em “Vida”, ela também assume a direção do clipe.
O vídeo carrega uma dimensão particularmente afetiva: é dedicado à gatinha Kami, que participou das gravações e faleceu pouco tempo depois. O detalhe transforma o videoclipe em uma extensão ainda mais pessoal da faixa e do próprio conceito do EP, atravessado pela ideia de nascimento, transformação, perda e continuidade.
É difícil separar essa escolha da própria essência de Vida. O projeto fala sobre a passagem do tempo, mas também registra aquilo que permanece.
Uma artista entre arte e consciência
Vida aprofunda uma trajetória que Jully vem construindo há anos. Antes do novo EP, a artista lançou Olhos Fechados e Abertos (2012), Réquiem (2020) e SOS (2023). Também dirigiu e produziu o documentário Solidariedade Vegan, lançado em 2025 e relacionado à ONG do artista João Gordo.
Essa combinação entre música, imagem e consciência social ajuda a entender o novo trabalho.
Jully não parece interessada em separar completamente arte e posicionamento. Suas canções podem partir de uma experiência pessoal, mas frequentemente terminam olhando para algo maior.
E talvez seja justamente essa a força de Vida: um EP que fala sobre existir sem tratar a existência como algo simples.
Entre o piano e a eletrônica, entre a perda e a esperança, Jully encontra espaço para uma pergunta que parece acompanhar todo o projeto: o que fazemos com a vida enquanto ela acontece?
A resposta, aqui, não vem pronta.
Ela está nas escolhas, nos erros, nos sonhos, nas relações e na própria capacidade de continuar.
